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quarta-feira, 1 de junho de 2011

SUPER AUTORES: “Black Athena” (“Atenas Negra”) - Martin Bernal - Prof. Dr. Leandro Rust

Martin Bernal é um estudioso de história política chinesa moderna que afirma que a civilização clássica grega na realidade se originou de culturas afroasiáticas e semíticas, e não apenas da Europa, como tradicionalmente é colocado pelos historiadores. Ele chama esta teoria de "Modelo Antigo Revisado", baseado em historiadores clássicos como Heródoto e em suas afirmações e reconhecimentos de uma herança cultural egípcia e fenícia. Este modelo contrasta com o dito Modelo Ariano, que coloca os povos falantes de línguas Indo-européias do norte e as antigas culturas autóctones gregas como a raiz principal da cultura grega. O Modelo Antigo Revisado, Bernal argumenta, possui raízes na civilização clássica que estuda, enquanto o Modelo Ariano advém do racismo em desenvolvimento nos séculos XVIII-XIX. Suas teorias são contestadas por alguns estudiosos da antiguidade clássica, como Maryr Lefkowitz.
Fonte: Wikipedia



A Origem da nossa cultura

Voltei e em grande estilo! Após um período de muito estudo e ralação, trago um texto ótimo sobre a Grécia antiga. É de Antonio Cícero, publicado na Folha de São Paulo em 11 de agosto de 2007:
O Segredo Grego.
Vinte anos atrás, Martin Bernal, professor de estudos mediterrâneos e orientais da Universidade de Cornell, EUA, provocou escândalos entre os estudiosos ao publicar “Black Athena” (“Atenas Negra”) em que defende que boa parte da cultura grega é de origem africana, em primeiro lugar, e asiática, em segundo. A África a que ele se refere é o Egito. Outra tese do livro, de menor importância, mas que justifica o título do livro, é a de que os egípcios teriam sido negróides. Bernal não pretende que suas idéias sejam absolutamente novas. Elas correspondem, de acordo com ele, a uma revisão do que denomina o “modelo antigo” das origens gregas. Segundo, por exemplo, Heródoto, no século 5 a.C., foi com os egípcios e com os asiáticos que os gregos aprenderam os rudimentos da religião. Observe-se também a extrema reverencia que Platão manifesta para com a religião e os mistérios do Egito. O “modelo antigo” comenta Bernal, dominou os estudos da Antiguidade até o fim do século 18. Esse modelo foi rejeitado nessa época, ao se construir disciplina moderna dos Estudos Clássicos. Minimizou-se ,então, a influencia egípcia e semítica sobre a Grécia. Segundo Bernal, isso se deu principalmente por razões ideológicas: “não ficava bem que a Grécia, agora considerada o berço da Europa, tivesse sido civilizada por africanos e asiáticos, que para a “nova ciência racial”, haviam passado a ser considerados como categoria inferior. Assim, por volta de 1840, produziu-se o “modelo ariano”, segundo o qual a cultura grega teria surgido basicamente a partir das conquistas dos “arianos”, vindos do norte. Considerada como absolutamente original, a cultura grega passou a ser contrastada com as culturas que a cercava como a luz com a escuridão. Como poderia esta influenciar aquela? Lembro que foi, de fato, esse o modelo que aprendi nas aulas de História, no Brasil. Bernal, com toda a razão, afirma que, ainda a Grécia tenha sofrido invasões de etnias indo-européias vindas do norte, isso não autorizaria a negar a influencia egípcia e asiática na formação de sua cultura. Ele está certo ao criticar o modelo ariano. Entretanto, o seu próprio “modelo antigo revisto” foi rapidamente assimilado ao “afrocentrismo”, uma ideologia que, nos seus momentos mais extremos, afirma que a cultura grega foi roubada da egípcia. Pois bem, longe de se dissociar de tais tolices, Bernal declara, por exemplo, que “os acadêmicos podem preferir a palavra que está na moda, apropriação, mas a palavra roubo não é inteiramente inadequada neste caso.” Bernal está errado. Apropriação não é eufemismo para roubo. Roubo é uma apropriação ilícita, em que o proprietário do objeto roubado é lesado. Por que considerar ilícitas as apropriações culturais? Os gregos se apropriaram, por exemplo, do alfabeto proto-alfabeto fenício. Não só, ao fazê-lo, não lesaram os fenícios mas, tendo transformado esse proto-alfabeto num alfabeto perfeitamente fonético, os gregos o legaram, em princípio ao resto do mundo. Não é possível negar nem a capacidade que a Grécia teve de se apropriar de todas as formas culturas que lhe interessassem, nem a originalidade do que foi por ela produzido a partir de tais apropriações. Essa originalidade não se deveu a “raça” nenhuma. Ainda que a Grécia continental tenha sofrido invasões de etnias indo-européias, essas se terão sem dúvida fundida a outras etnias no verdadeiro crisol étnico que era o Mediterrâneo oriental. É o que permite a Isócrates, no século 4 a.C. , declarar que são chamados “gregos antes os que participam de nossa educação do que os que participam de uma raça comum”. Qual o segredo da originalidade da Grécia? Talvez Arnold Hauser tenha chegado perto de descobrir ao falar de Homero. Para ele, “o espírito sem lei e irreverente dos príncipes aqueus da idade heróica deve-se ao fato de que eram piratas e saqueadores que haviam obtido uma série fulminante de vitórias sobre povos mais civilizados. Com isso, emanciparam-se da sua religião ancestral, ao mesmo tempo que desprezavam as religiões dos povos que conquistavam, exatamente por serem religiões de povos conquistados. Pois foi mais ou menos assim que os helenos conseguiram se conservar unidos em torno de Homero e da língua grega, abertos ao turbilhão cultural mediterrâneo e singularmente livres, tanto de qualquer Igreja quanto de qualquer Estado central.

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